Se liga Okja: um drama disfarçado de comédia

Okja: um drama disfarçado de comédia

Okja já está disponível no Netflix


04/07/2017 - Mayara Simeão

As cores, as músicas e até mesmo os personagens me fizeram lembrar a direção de Wes Anderson. Mas diferente desse, Joon-Ho Bong não faz críticas sociais em Okja usando apenas cenas bonitas, há muita tristeza e dor.

Antes mesmo da sua estreia na Netflix, em 28 de junho, o filme já se envolveu em uma polêmica durante o Festival de Cannes. Apesar da discussão de não ser rodado no cinema, foi aplaudido por muitos.

O ponto central da história é a amizade da jovem Mija (Seo-Hyun Ahn) com a sua superporca Okja, que parece muito mais um hipopótamo de orelhas baixas. Ela é tratada como qualquer animal de estimação, até mesmo dormem juntas, igual a você que tem um dogzinho e o deixa subir na cama nessas noites frias, e assim começa o questionamento: o que faríamos se o nosso melhor amigo estivesse prestes a virar bacon?

Do lado sombrio desse faz de conta, temos Lucy Mirando (Tilda Swinton), que há 10 anos quando decidiu tomar as rédeas da empresa de sua família, revelou ao mundo que havia descoberto uma espécie rara de porco gigante no Chile. Assim, houve acasalamentos “naturais” e geraram outros 26 porquinhos que seriam distribuídos há fazendeiros de todo o mundo. No final, de todo esse bláh bláh bláh  “orgânico” haveria um concurso para saber qual fazendeiro conseguiu criar o maior porco. Por fim, todos, inclusive o campeão, viraria bacon “saudável”.

De volta a 2017, o avô de Mija havia contado a mentira que conseguiu comprar a superporca e a não deixaria ser levada embora, mas quando o extravagante e doentio Johnny Wilcox (Jake Gyllenhaal), que é um apresentador de TV e jura amar os animais, chega na fazenda, Okja se torna a vencedora do concurso e a menina é exposta a verdade.

A primeira cena triste acontece quando a garota desesperadamente vai atrás de sua melhor amiga. Enfrentando o seu avô, invadindo uma empresa em Seul, e se agarrando ao caminhão que transporta Okja.

Aqueles que poderiam ser considerado os heróis, se não fosse o extremismo, tentam salvar Okja, mas na verdade a usando como infiltrante no laboratório de New Jersey para que eles tenham um material que consiga mostrar a realidade que a Mirando não assume. Mais uma vez Mija se ver perdendo a sua melhor amiga.

O início fantasioso e mais cômico se perde para uma crítica severa ao sistema de alimentação que temos hoje, na verdade, porque não dizer uma crítica ao capitalismo.

Aquele que não respeita nenhum ser vivo. Animais são tratados como mercadorias, sem carinho e amor, para terem um final horrível. Nós, seres humanos, consumimos produtos transgênicos e somos iludidos por uma falsa cresça que precisamos daquilo para sobreviver.

O filme é uma reflexão sobre não sabemos a procedência do que consumimos e deixar o mau trato acontecer com os animais. Enquanto ficamos revoltados com vídeos de pessoas que batem em cachorros, não sentimos a menor piedade dos animais em abatedouros.

Enquanto assistia, relembrei da investigação Carne Fraca, onde foram revelados a falta de higiene com a nossa alimentação. Quando o vídeo das atrocidades de Mirando são reveladas pelos ativistas da FLA, eu me perguntei se haveria uma revolta ou se todos continuariam a consumir como aconteceu aqui no país.

O vegetarianismo é uma solução, mas a agropecuária orgânica também pode colaborar para amenizar o sofrimentos desses animais e trazer benefícios para a nossa saúde.

Sem mais detalhes, temos um filme triste, mas que poderia ser bem pior.

Temos ainda a participação de Giancarlo Esposito, o querido Gus Fring de Breaking Bad e Better Call Saul, no papel do puxa-saco da empresa e também Paul Dano, como um dos integrantes da FLA, que assume a postura de um cara que ama todos os seres vivos sem exceção